Adiar os alimentos potencialmente alergênicos não previne alergia. A nutricionista Carla Gargiulo explica o que mudou na ciência, a partir de quando oferecer e como fazer isso na prática, em casa.
Conteúdo educativo em parceria com a Da Vovó Natural Baby. Não substitui a orientação do pediatra ou do nutricionista que acompanha o seu bebê.
Você sabia que adiar a introdução dos alimentos potencialmente alergênicos não é uma forma de prevenir alergias alimentares? Essa ainda é uma dúvida muito comum entre as famílias que atendo no consultório, e é uma das que mais gera medo na hora de montar o primeiro prato do bebê.
Neste texto eu explico por que o momento da introdução desses alimentos é tão importante, o que mudou na ciência nos últimos dez anos e como isso se traduz na prática, na cozinha de casa.
Quais são os alimentos que mais preocupam
Leite de vaca, ovo, peixe, trigo, soja, amendoim, castanhas e alguns outros alimentos podem desencadear reações alérgicas. Por isso é muito comum os pais terem receio de oferecer ao bebê pela primeira vez.
O receio é compreensível, e ele tem história. Durante muitos anos, a orientação que circulava era exatamente a oposta da atual: esperar o máximo possível antes de oferecer esses alimentos, às vezes até depois dos 2 ou 3 anos de idade. Muitas avós e muitas mães ouviram isso, e a informação ficou.
Mas para a maioria dos bebês não há recomendação de adiar a introdução desses alimentos sem uma indicação específica.
O que mudou: a ciência virou a recomendação do avesso
A mudança não foi uma opinião nova, foi resultado de pesquisa.
O estudo que mais marcou esse tema acompanhou 640 bebês britânicos com alto risco de alergia, com idades entre 4 e 11 meses. Metade passou a consumir amendoim regularmente, e a outra metade evitou completamente durante cinco anos. Aos 5 anos de idade, a diferença era grande: 17,2% de alergia ao amendoim no grupo que evitou, contra 3,2% no grupo que consumiu desde bebê (Du Toit G. et al., LEAP Study, New England Journal of Medicine, 2015).
Ou seja: evitar não protegeu. Nesse estudo, o grupo que evitou teve mais alergia, não menos.
No Brasil, a diretriz acompanhou essa evidência. O Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria em conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, é claro ao afirmar que a introdução precoce dos alimentos alergênicos pode ser protetora contra o desenvolvimento de alergia alimentar, e que adiar esses alimentos não traz benefício de prevenção (SBP e ASBAI, Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, 2018, parte 2).

A partir de quando
A partir dos seis meses, quando o bebê já apresenta os sinais de prontidão para iniciar a alimentação complementar, esses alimentos podem ser introduzidos de forma adequada.
Os sinais de prontidão que observo na prática são os mesmos que o Ministério da Saúde descreve no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos: o bebê senta com apoio e sustenta a cabeça, leva objetos à boca, demonstra interesse pela comida da família e perdeu o reflexo de empurrar com a língua tudo o que não é líquido.
Idade sozinha não é sinal de prontidão. Prontidão é o conjunto.
Por que o momento importa
Existe uma janela de oportunidade para o desenvolvimento da tolerância alimentar.
Nessa fase, o sistema imunológico do bebê está amadurecendo, e o contato com diferentes alimentos pode contribuir para o desenvolvimento dessa tolerância. É como se o corpo estivesse aprendendo a reconhecer o que é alimento e o que é ameaça, e esse aprendizado tem um período em que acontece com mais facilidade.
Isso não significa que a alergia possa ser totalmente evitada. Nenhum alimento, nenhuma ordem de introdução e nenhum cronograma garantem que uma criança não desenvolva alergia. As evidências mostram, porém, que a introdução nesse período adequado pode reduzir o desenvolvimento de alergias alimentares em algumas crianças.
E vale dizer com todas as letras: quando a alergia acontece, não é culpa da mãe. Alergia alimentar tem componente genético e ambiental, e ela pode aparecer mesmo quando tudo foi feito com cuidado.

Como oferecer na prática
Estas são as orientações gerais que passo no consultório. Elas não substituem a avaliação individual do seu bebê.
- Um alimento novo de cada vez. Assim, se acontecer alguma reação, fica mais fácil identificar qual foi o alimento envolvido.
- Em casa, em horário em que você possa observar. Prefira o começo do dia a oferecer um alergênico pela primeira vez à noite, ou em um passeio longe de casa.
- Na forma adequada para a idade. Amendoim e castanhas inteiros não são oferecidos a bebês, pelo risco de engasgo. A forma segura de oferecer oleaginosas é a pasta diluída ou a farinha do alimento incorporado às preparações.
- Mantendo na rotina. Oferecer uma vez e sumir com o alimento por meses não constrói tolerância. A exposição regular é parte do processo.
- Sem transformar a refeição em teste. O bebê sente a tensão do adulto. Quanto mais natural for o momento, melhor ele acontece.
Quando a conversa com o profissional vem antes
Existem situações em que a introdução dos alergênicos precisa de avaliação individual antes de começar:
- bebê que já teve alguma reação alérgica a algum alimento;
- bebê com dermatite atópica moderada ou grave;
- histórico importante de alergia alimentar na família;
- qualquer condição de saúde que o pediatra esteja acompanhando de perto.
Nesses casos, o caminho não é adiar por conta própria. É conversar com o profissional que acompanha o seu bebê e montar um plano.
O que fica para as famílias
- Adiar não protege. Para a maioria dos bebês, não há motivo para atrasar a introdução dos alergênicos.
- O ponto de partida são os sinais de prontidão, em geral por volta dos seis meses.
- A exposição regular, e não a exposição única, é o que ajuda a construir tolerância.
- Cada bebê é um bebê. A introdução alimentar deve ser orientada individualmente, respeitando as evidências científicas e as características de cada criança.
Introduzir novos alimentos também é uma forma de cuidar da saúde do bebê no presente e no futuro.
Se o seu bebê tem histórico de alergia na família, já teve alguma reação ou tem uma condição de saúde, converse com o pediatra ou o nutricionista antes de oferecer esses alimentos.
Perguntas frequentes
Adiar o ovo, o peixe ou o amendoim previne alergia no bebê?+
Não. Para a maioria dos bebês, não há recomendação de adiar esses alimentos sem uma indicação específica. No estudo LEAP (New England Journal of Medicine, 2015), o grupo que evitou o amendoim teve mais alergia, não menos.
A partir de quando posso oferecer alimentos alergênicos ao bebê?+
A partir dos seis meses, quando o bebê já apresenta os sinais de prontidão para iniciar a alimentação complementar, descritos no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (Ministério da Saúde, 2019).
Como oferecer oleaginosas ao bebê com segurança?+
Amendoim e castanhas inteiros não são oferecidos a bebês, pelo risco de engasgo. A forma segura é a pasta diluída ou a farinha do alimento incorporado às preparações.
Quando preciso falar com o profissional antes de oferecer?+
Se o bebê já teve reação alérgica a algum alimento, tem dermatite atópica moderada ou grave, tem histórico importante de alergia alimentar na família ou alguma condição de saúde acompanhada de perto pelo pediatra.
Fontes: Du Toit G. et al., Randomized Trial of Peanut Consumption in Infants at Risk for Peanut Allergy (LEAP Study), New England Journal of Medicine (2015), 372:803-813; Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar (2018), parte 2; Ministério da Saúde, Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019).

Quem escreveu
Carla Gargiulo✓Nutricionista materno-infantil · CRN-3 92551
Nutricionista materno-infantil. No consultório, acompanha famílias na introdução alimentar e na seletividade, traduzindo evidência científica em orientação que cabe na rotina de casa.
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