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Adiar o ovo, o peixe ou o amendoim não previne alergia no bebê. Entenda o momento certo de oferecer
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Introdução Alimentar

Adiar o ovo, o peixe ou o amendoim não previne alergia no bebê. Entenda o momento certo de oferecer

Carla GargiuloCarla Gargiulo✓Nutricionista materno-infantil · CRN-3 92551 · 6 min de leitura

Adiar os alimentos potencialmente alergênicos não previne alergia. A nutricionista Carla Gargiulo explica o que mudou na ciência, a partir de quando oferecer e como fazer isso na prática, em casa.

Conteúdo educativo em parceria com a Da Vovó Natural Baby. Não substitui a orientação do pediatra ou do nutricionista que acompanha o seu bebê.

Você sabia que adiar a introdução dos alimentos potencialmente alergênicos não é uma forma de prevenir alergias alimentares? Essa ainda é uma dúvida muito comum entre as famílias que atendo no consultório, e é uma das que mais gera medo na hora de montar o primeiro prato do bebê.

Neste texto eu explico por que o momento da introdução desses alimentos é tão importante, o que mudou na ciência nos últimos dez anos e como isso se traduz na prática, na cozinha de casa.

Carla Gargiulo, nutricionista materno-infantil, CRN-3 92551

Quais são os alimentos que mais preocupam

Leite de vaca, ovo, peixe, trigo, soja, amendoim, castanhas e alguns outros alimentos podem desencadear reações alérgicas. Por isso é muito comum os pais terem receio de oferecer ao bebê pela primeira vez.

O receio é compreensível, e ele tem história. Durante muitos anos, a orientação que circulava era exatamente a oposta da atual: esperar o máximo possível antes de oferecer esses alimentos, às vezes até depois dos 2 ou 3 anos de idade. Muitas avós e muitas mães ouviram isso, e a informação ficou.

Mas para a maioria dos bebês não há recomendação de adiar a introdução desses alimentos sem uma indicação específica.

O que mudou: a ciência virou a recomendação do avesso

A mudança não foi uma opinião nova, foi resultado de pesquisa.

O estudo que mais marcou esse tema acompanhou 640 bebês britânicos com alto risco de alergia, com idades entre 4 e 11 meses. Metade passou a consumir amendoim regularmente, e a outra metade evitou completamente durante cinco anos. Aos 5 anos de idade, a diferença era grande: 17,2% de alergia ao amendoim no grupo que evitou, contra 3,2% no grupo que consumiu desde bebê (Du Toit G. et al., LEAP Study, New England Journal of Medicine, 2015).

Ou seja: evitar não protegeu. Nesse estudo, o grupo que evitou teve mais alergia, não menos.

No Brasil, a diretriz acompanhou essa evidência. O Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria em conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, é claro ao afirmar que a introdução precoce dos alimentos alergênicos pode ser protetora contra o desenvolvimento de alergia alimentar, e que adiar esses alimentos não traz benefício de prevenção (SBP e ASBAI, Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, 2018, parte 2).

Bebê iniciando a alimentação complementar aos 6 meses

A partir de quando

A partir dos seis meses, quando o bebê já apresenta os sinais de prontidão para iniciar a alimentação complementar, esses alimentos podem ser introduzidos de forma adequada.

Os sinais de prontidão que observo na prática são os mesmos que o Ministério da Saúde descreve no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos: o bebê senta com apoio e sustenta a cabeça, leva objetos à boca, demonstra interesse pela comida da família e perdeu o reflexo de empurrar com a língua tudo o que não é líquido.

Idade sozinha não é sinal de prontidão. Prontidão é o conjunto.

Por que o momento importa

Existe uma janela de oportunidade para o desenvolvimento da tolerância alimentar.

Nessa fase, o sistema imunológico do bebê está amadurecendo, e o contato com diferentes alimentos pode contribuir para o desenvolvimento dessa tolerância. É como se o corpo estivesse aprendendo a reconhecer o que é alimento e o que é ameaça, e esse aprendizado tem um período em que acontece com mais facilidade.

Isso não significa que a alergia possa ser totalmente evitada. Nenhum alimento, nenhuma ordem de introdução e nenhum cronograma garantem que uma criança não desenvolva alergia. As evidências mostram, porém, que a introdução nesse período adequado pode reduzir o desenvolvimento de alergias alimentares em algumas crianças.

E vale dizer com todas as letras: quando a alergia acontece, não é culpa da mãe. Alergia alimentar tem componente genético e ambiental, e ela pode aparecer mesmo quando tudo foi feito com cuidado.

Sinais de alergia alimentar em bebês

Como oferecer na prática

Estas são as orientações gerais que passo no consultório. Elas não substituem a avaliação individual do seu bebê.

  • Um alimento novo de cada vez. Assim, se acontecer alguma reação, fica mais fácil identificar qual foi o alimento envolvido.
  • Em casa, em horário em que você possa observar. Prefira o começo do dia a oferecer um alergênico pela primeira vez à noite, ou em um passeio longe de casa.
  • Na forma adequada para a idade. Amendoim e castanhas inteiros não são oferecidos a bebês, pelo risco de engasgo. A forma segura de oferecer oleaginosas é a pasta diluída ou a farinha do alimento incorporado às preparações.
  • Mantendo na rotina. Oferecer uma vez e sumir com o alimento por meses não constrói tolerância. A exposição regular é parte do processo.
  • Sem transformar a refeição em teste. O bebê sente a tensão do adulto. Quanto mais natural for o momento, melhor ele acontece.

Quando a conversa com o profissional vem antes

Existem situações em que a introdução dos alergênicos precisa de avaliação individual antes de começar:

  • bebê que já teve alguma reação alérgica a algum alimento;
  • bebê com dermatite atópica moderada ou grave;
  • histórico importante de alergia alimentar na família;
  • qualquer condição de saúde que o pediatra esteja acompanhando de perto.

Nesses casos, o caminho não é adiar por conta própria. É conversar com o profissional que acompanha o seu bebê e montar um plano.

O que fica para as famílias

  • Adiar não protege. Para a maioria dos bebês, não há motivo para atrasar a introdução dos alergênicos.
  • O ponto de partida são os sinais de prontidão, em geral por volta dos seis meses.
  • A exposição regular, e não a exposição única, é o que ajuda a construir tolerância.
  • Cada bebê é um bebê. A introdução alimentar deve ser orientada individualmente, respeitando as evidências científicas e as características de cada criança.

Introduzir novos alimentos também é uma forma de cuidar da saúde do bebê no presente e no futuro.

Se o seu bebê tem histórico de alergia na família, já teve alguma reação ou tem uma condição de saúde, converse com o pediatra ou o nutricionista antes de oferecer esses alimentos.

Perguntas frequentes

Adiar o ovo, o peixe ou o amendoim previne alergia no bebê?+

Não. Para a maioria dos bebês, não há recomendação de adiar esses alimentos sem uma indicação específica. No estudo LEAP (New England Journal of Medicine, 2015), o grupo que evitou o amendoim teve mais alergia, não menos.

A partir de quando posso oferecer alimentos alergênicos ao bebê?+

A partir dos seis meses, quando o bebê já apresenta os sinais de prontidão para iniciar a alimentação complementar, descritos no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (Ministério da Saúde, 2019).

Como oferecer oleaginosas ao bebê com segurança?+

Amendoim e castanhas inteiros não são oferecidos a bebês, pelo risco de engasgo. A forma segura é a pasta diluída ou a farinha do alimento incorporado às preparações.

Quando preciso falar com o profissional antes de oferecer?+

Se o bebê já teve reação alérgica a algum alimento, tem dermatite atópica moderada ou grave, tem histórico importante de alergia alimentar na família ou alguma condição de saúde acompanhada de perto pelo pediatra.

Fontes: Du Toit G. et al., Randomized Trial of Peanut Consumption in Infants at Risk for Peanut Allergy (LEAP Study), New England Journal of Medicine (2015), 372:803-813; Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar (2018), parte 2; Ministério da Saúde, Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019).

Carla Gargiulo

Quem escreveu

Carla Gargiulo✓

Nutricionista materno-infantil · CRN-3 92551

Nutricionista materno-infantil. No consultório, acompanha famílias na introdução alimentar e na seletividade, traduzindo evidência científica em orientação que cabe na rotina de casa.

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